Neurologia, nós escolhemos você.

“Você faz suas escolhas e suas escolhas fazem você.”
(William Shakespeare)

Eram quatro horas da tarde, saí da última aula de semiologia, no quinto período da faculdade e fui apressado para o ambulatório de neurologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Uberlândia. A recepcionista avisou-me que havia um paciente como prioridade, pois estava acamado. Vesti meu jaleco e tratei logo de chamá-lo. Entrou no consultório um jovem de pouco mais de 20 anos, acompanhado de seus pais. O rapaz estava deitado sobre a maca, com postura rígida dos quatro membros e não conseguia se comunicar. Seus pais então me relataram o que ocorrera. Disseram-me que, meses antes, ele estava em uma festa de formatura com os amigos, onde fez uso de gás de buzina, e em seguida, teve parada cardiorrespiratória. Recebeu reanimação cardiopulmonar e apresentou retorno à circulação espontânea, sendo encaminhado ao hospital.

Após recobrar a consciência, ele estava tetraparético (perda de força nos quatro membros) e afásico (sem linguagem verbal), decorrente da anóxia cerebral (falta de oxigenação no cérebro), tanto pelo efeito tóxico direto da droga, como pela ausência de fluxo sanguíneo cerebral devido à parada cardíaca. E naquela consulta, a primeira após alta hospitalar, ele e seus pais esperavam ouvir boas notícias, que logo ficaria bem e voltaria a andar e ser independente como antes. No entanto, com compaixão na voz, e sabendo que aquilo que esperavam dependeria de um milagre, apenas disse que se esforçasse a manter a reabilitação física para obter o máximo de ganho e o mínimo de incapacidades. A medicina é assim, às vezes você cura, às vezes alivia, mas sempre você pode consolar. E ali eu somente consolei a dor de saber que, talvez, continuaria naquela situação, mas sem perder a fé e a esperança nas pequenas conquistas diárias.


Como neste caso real, o uso recreativo de substâncias voláteis é muito comum entre os mais jovens, pela facilidade de acesso e baixo custo. Essas substâncias consistem em solventes de tintas, cola, laquês, combustíveis (gasolina, querosene, nafta) e propelentes aerossóis, os quais são compostos principalmente de hidrocarbonetos, como gás butano e propano. Os principais efeitos incluem euforia, similar a intoxicação alcóolica, desinibição, tontura e agitação, podendo levar a depressão respiratória, arritmia cardíaca, perda da consciência e morte súbita. Vale ressaltar que os propelentes aerossóis são seguros para uso geral, mas podem ser nocivos a saúde, incluindo causa de suicídio, se usados incorretamente.


O efeito tóxico desses gases voláteis presentes nos aerossóis, sobretudo o gás butano, se dá devido sua elevada lipossolubilidade, e rápida absorção pelo sistema respiratório e barreira hemato-encefálica, onde causará dano direto ao sistema nervoso, a depender da quantidade da substância inalada, sua concentração e tempo de inalação. Além disso, a inalação desses gases pode induzir narcose (acúmulo de gás carbônico) e gerar hipóxia, causando dano indireto a diversos outros órgãos.


Desta forma, cada escolha traz consigo consequências. Sabemos que a escolha implica em aceitar algo em detrimento de outro, e aqui reside o ponto crucial, fazer a escolha certa. Sair da inércia, da zona de conforto e escolher mudar, encarar um novo que não se conhece pode trazer medo, de perder o porto seguro que se deixa para trás e de encarar o mar aberto à frente, que a nova escolha trará.
As escolhas fazem parte de nossa vida, desde antes de nascermos e até adquirirmos maturidade, alguém escolhe por nós. A roupa do batismo, a mochila da escola, o cardápio do jantar, ir ao shopping, a todo momento, escolhas são feitas. E quando chegamos a certa fase da vida, temos que fazer uma escolha importante, escolher a nossa profissão, ou “o que eu quero ser quando crescer”.
Shakespeare já dizia que “as escolhas que fazemos ditam a vida que levamos”, e escolher uma profissão pode parecer tão difícil, pois influenciará o que seremos no futuro. Eu nunca tive dúvidas sobre qual profissão seguir, sempre quis ser médico, e quando chegou a hora fiz minha escolha.


Já no inicio da faculdade de medicina, era bombardeado pelos familiares e amigos com a pergunta que todo estudante de medicina ouve desde quando ingressa na faculdade até se formar: “vai se especializar em quê?”. Como se fosse uma obrigação moral do médico ter uma especialidade. O médico tem que ser especialista em gente, como dizia Adib Jatene. Esta sim é a maior especialidade médica, o ser humano, ou pode-se dizer a “humanologia”. Depois disso, se quiser, pode escolher se aprofundar em alguma área médica.
A neurologia, por sua vez, é a especialidade médica que basicamente estuda e trata as doenças do sistema nervoso, incluindo o cérebro, medula e nervos. Entender como funcionam as estruturas que compõem este sistema, feito basicamente de neurônios e células da glia, e como as doenças afetam essas estruturas é fascinante e desafiador. Poder utilizar este conhecimento para ajudar pessoas que sofrem de doenças neurológicas foi a razão da minha escolha. Ainda há muito que aprendermos e descobrirmos, e a cada ano o conhecimento científico em neurociência avança rumo a um futuro promissor, no qual poderemos fazer muito mais pelos que necessitam e, confiantes, aguardam respostas.

Referências:

  1. L. Sironi, et al. Recreational inhalation of butane and propane in adolescents: Two forensic cases of accidental death, Forensic Sci. Int, Volume 266, 2016, pages e52-e58. Doi: 10.1016/j.forsciint.2016.05.028
  2. V. Alunni et al. Death from butane inhalation abuse in teenagers: Two new case studies and review of the literature. J Forensic Sci. 2018 Jan;63(1):330-335. Doi: 10.1111/1556-4029.13520. Epub 2017 Jul 18. PMID: 28718908.

3 comentários em “Neurologia, nós escolhemos você.”

  1. Bom dia Doutror!
    Em 2016 descobri o diagnóstico que esta com Parkinson.
    Foi deserperador, não sabia nada da doença, tive depreção, tinha medo de andra na rua, não conseguia dirigir, achava que minha vida acabara ali.
    Depois de vários de passar por vários médicos, comecei a medicação.
    Melhorei bastante, mas ainda tenho tremores e sinto muitas dores no corpo.
    Gostaria de saber se você é especialista nesta área.

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