Enxaqueca

A enxaqueca (ou migrânea) é o segundo tipo mais comum de cefaleia (dor de cabeça), atrás apenas da cefaleia tensional. É uma desordem do cérebro, com origem genética, caracterizada por dor de cabeça tipicamente unilateral, moderada a forte intensidade, pulsátil, acompanhada de náuseas, vômitos, fotofobia (intolerância à luz), fonofobia (intolerância a sons), osmofobia (intolerância a cheiros), piora com esforço físico, e dura cerca de 4 a 72 horas.

A enxaqueca pode ser classificada em episódica, quando há <15 dias de dor/mês, ou crônica, quando há 15 ou mais dias de dor/mês. É um problema de saúde pública mundial e afeta cerca de 1 a cada 5 mulheres. Apesar de ser reconhecida pela dor, a enxaqueca é um complexo de sintomas divididos em quatro fases: 1) fase premonitória; 2) aura; 3) dor e 4) pósdromo.

SINTOMAS PREMONITÓRIOS

Antes de iniciar a dor propriamente dita, a pessoa pode apresentar sintomas premonitórios, que incluem fadiga, dificuldade de concentração, amnésia, depressão, bocejos, sede, desejos alimentares, rigidez cervical, foto e fonofobia. Esses sintomas podem anteceder o ataque de dor em horas a dias. Em alguns casos, ocorrem sintomas neurológicos transitórios, chamados de aura.

AURA

Aura de enxaqueca são sintomas paroxísticos e transitórios do sistema nervoso central, reversíveis e unilaterais, que duram de 5 a 60 minutos e são seguidos por cefaleia em até 1 hora. Podem ser visuais (escotomas cintilantes, borramentos na visão, espectros de fortificação), sensitivas (parestesia – formigamento), motoras (hemiplegia), de linguagem, de tronco encefálico (disartria, vertigem, diplopia) ou retiniana (amaurose).

PÓSDROMO

Reconhecida mais recente como uma fase da enxaqueca, a fase posdrômica inicia logo após a resolução da dor e dura até o momento em que a pessoa se sente completamente normal. Dentre os sintomas que a pessoa pode sentir nesta fase, destacam-se: alteração de concentração, humor e sono, constipação, flatos, náuseas, vômitos, hiporexia, desejo alimentar, diarreia, dor abdominal, alodinia no couro cabeludo, foto e fonofobia, retenção de líquidos, cansaço mental, fadiga, raciocínio lento e polaciúria.

ORIGEM E GATILHOS

Apesar de ainda ser incerta a origem da enxaqueca, sabe-se que ela possui forte associação genética, sobretudo a enxaqueca com aura, e pode ser desencadeada por inúmeros fatores ou gatilhos. Os principais fatores desencadeantes associados a um ataque de enxaqueca são:

  1. Alterações de humor: ansiedade, estresse emocional;
  2. Sono: insônia, privação de sono, sono pouco reparador;
  3. Alimentação: jejum prolongado e vários tipos de alimentos e bebidas;
  4. Período menstrual;
  5. Mudança climática: umidade, frio, calor, alteração de pressão atmosférica;
  6. Abuso de analgésicos: contribuem para cronificar a dor.

ALIMENTAÇÃO E ENXAQUECA

Os principais alimentos envolvidos como desencadeantes de ataques de enxaqueca são:

  • Bebidas alcoólicas (sobretudo vinho tinto e cerveja);
  • Embutidos (salame, presunto, mortadela, salsicha) – ricos em nitratos/nitritos;
  • Glutamato monossódico (temperos prontos);
  • Cafeína (abuso e abstinência);
  • Queijos maturados;
  • Chocolate;
  • Pão francês;
  • Melancia;
  • Amendoim, dentre outros.

TRATAMENTO

O tratamento da enxaqueca é dividido em duas fases:

  1. Tratamento agudo
  2. Tratamento preventivo

TRATANDO A CRISE DE ENXAQUECA

O tratamento da crise aguda de enxaqueca é realizado em todos os pacientes com migrânea. O objetivo é cessar o mais rápido possível o ataque de dor de cabeça. O tratamento agudo pode ser feito com medidas não-farmacológicas e com medicamentos.

Para todos os pacientes durante a crise de dor, recomenda-se:

  • Beber bastante água;
  • Repouso em lugar com pouca luz e silencioso;
  • Compressa fria nas têmporas;
  • Chás calmantes;
  • Óleos essenciais;
  • Mindfulness

Os medicamentos utilizados devem ser individualizados e prescritos pelo neurologista. Deve-se limitar a frequência de uso de medicamentos analgésicos para evitar o desenvolvimento de cefaleia crônica diária induzida por abuso analgésico. Evitar ultrapassar o limite de 2x/semana de uso de analgésicos. Caso seja utilizado medicamento para abortar a crise de dor, este deve ser utilizado precocemente, de preferência nas primeiras 2 horas de dor. O atraso na tomada do analgésico reduz o seu efeito no controle da dor.

Os medicamentos recomendados incluem:

  • Analgésicos: Dipirona, Paracetamol.
  • Antiinflamatórios não esteroidais: Ibuprofeno, Naproxeno, Diclofenaco, AAS.
  • Triptanos: Sumatriptano, Naratriptano, Rizatriptano, Zolmitriptano.
  • Ergotamina e Diidroergotamina.
  • Combinados: Sumatriptano + Naproxeno, Ergotamina/AINE + Cafeina

TRATAMENTO PREVENTIVO

O tratamento profilático ou de manutenção não é indicado a todos os pacientes. Ele é reservado para os casos de enxaqueca crônica ou crises incapacitantes de dor de cabeça, e que tenham grande impacto na qualidade de vida da pessoa, mesmo que infrequentes. O principal objetivo deste tratamento é obter redução da frequência e/ou intensidade da dor, reduzir o uso do tratamento agudo de crises e reduzir a incapacidade relacionada a enxaqueca. Vale ressaltar que uma melhora de pelo menos 50% da frequência de crises já é considerada efeito positivo do tratamento, e que, portanto, nem sempre, se consegue cessar as crises por completo.

As recomendações para a prevenção da enxaqueca incluem:

  • Modificações no estilo de vida;
  • Atividade física aeróbia regular;
  • Hidratação adequada;
  • Evitar os gatilhos e fatores desencadeantes;
  • Sono regular e reparador;
  • Ter rotina de alimentação balanceada, evitando jejum prolongado;
  • Utilizar diário de cefaleia.

Os medicamentos que podem ser utilizados para o tratamento de manutenção da enxaqueca incluem: bloqueadores beta-adrenérgicos (Propranolol, Metoprolol, Atenolol), anti-epilépticos (Topiramato, Ácido valproico, Gabapentina), antidepressivos (Amitriptilina, Nortriptilina, Duloxetina, Venlafaxina), bloqueadores de canal de cálcio (Flunarizina, Verapamil) e os recentemente lançados, anticorpos monoclonais (Erenumab, Galcanezumab, Fremanezumab).

Além disso, a toxina botulínica, em protocolo específico para enxaqueca, também é útil no controle da migrânea crônica, além de acupuntura, neuroestimulação não invasiva e terapia comportamental (biofeedback e terapia cognitivo-comportamental).

Vale ressaltar que o tratamento preventivo deve ser utilizado por no mínimo 6 meses (em média, 6 meses a 2 anos). A interrupção precoce pode levar a cronificação e mau controle da enxaqueca. Os medicamentos utilizados no tratamento de manutenção não causam dependência e poderão ser suspensos pelo médico neurologista posteriormente. Além disso, ainda não existe tratamento curativo para enxaqueca, portanto, pode acontecer nova piora da dor após algum tempo, e em qualquer fase da vida, com necessidade de um novo ciclo de tratamento (não necessariamente com o mesmo medicamento). Portanto, o seguimento regular com o neurologista é fundamental.

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